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não se acostume com a vida


Faz pouco mais  de  dois  anos  que  fui  diagnosticada  com câncer de mama. Foi o maior susto que tomei na vida e também o maior medo que senti. Nada indicava que isso poderia ocorrer; portanto, eu vivia sem preocupações nesse sentido. Muita coisa mudou desde então. Não porque agora precisarei monitorar minha saúde por tempo indeterminado, mesmo estando curada segundo apontam os exames e afirmam os médicos –, mas porque a transformação que essa experiência complexa desencadeou em mim foi muito profunda e não cessa. (...)
Com essa perspectiva e a partir da necessidade de organizar meus pensamentos para prosseguir de forma mais esclarecida (minha motivação para escrever e, assim, elaborar melhor o que eu vivia), em determinado momento percebi que eu estava essencialmente abordando a questão do manejo do sofrimento, e o sofrimento manifestado de forma diversificada não aquele de quem recebe o diagnóstico que eu recebi, pois este não é um livro apenas sobre câncer e dedicado a pacientes, nem sobre mim. Vai além, e me faço presente pois parti da minha vivência para propor tais reflexões, usei-me como exemplo em alguns momentos. (...)
Muitas vezes, a paz que a compreensão traz vem de olharmos para as mesmas questões com outros olhos, e esse outro jeito de enxergar nem sempre vem da certeza de que acessamos e entendemos tudo, de que é precisa a explicação. Pelo contrário, vem de admitirmos que vida é mistério, e mesmo que tentemos desvendá-la, acessamos parte desse todo, e muito do que achamos ter descoberto não passa, na realidade, de uma verdade parcial e enviesada que nós mesmos inventamos e convencionamos ser a verdade suprema. A paz deve vir da aceitação de que isso não nos preenche completamente, o que cria em nós uma expectativa de que não nada que seja tão absoluto que não possa ser ressignificado, nem a dor, nem o sofrimento, nem o adoecer. E nem o curar-se, pois a superação de um quadro de doença pode passar a representar o próprio renascer em vida, o despertar para uma nova etapa de quem é você, reinventado e amadurecido e com forças para ir além de onde conseguiu ir até aquele momento.
Por isso, ao escrever, mais que informar sobre o câncer, me predisponho a provocar o leitor a pensar sobre novas formas de olhar para o que é dor ou doença, que, em uma perspectiva mais abrangente, passa a representar tudo aquilo que nos desestabiliza em essência, o que é o sofrimento e como podemos minimizá-lo para nos relacionar melhor com ele, e, ainda, o que a cura pode representar, para além da superação de uma enfermidade, quando considerada uma oportunidade valiosa de nos reformularmos.
Precisei escrever este livro para me curar. Além de todas as etapas do tratamento cumpridas cirurgia, quimioterapia, radioterapia, hormonioterapia, terapia cognitiva –, também foi fundamental, no meu processo de cura, escrever, que era para pensar melhor e porque eu realmente queria colocar essas reflexões no mundo. Se posso, de alguma maneira, ser grata ao que experienciei e ao fato de ter sobrevivido para contar, em outro estágio de amadurecimento, ofereço humildemente este relato e o resultado do pensamento que foi construído até aqui.


Não se acostume com a vida: reflexões que o câncer e outras situações complexas podem despertar em nós*

Autora: Marina Arruda
Editora: Labrador
Páginas: 110
Preço: R$35,00 (parte do valor arrecadado com a venda dos exemplares é destinada ao Hospital de Amor, onde fiz meu tratamento)

* para adquirir o livro solicite pelo e-mail marinasilveiraarruda@gmail.com