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É bonita...


30/01/2017

Foi em meio àquele barulho alto, naquela situação inédita pra mim, cercada de tanta gente desconhecida, que me veio um sentimento muito forte e genuíno de gratidão. Por que eu me dei conta que há pouco tempo atrás eu mal podia me mexer direito, e por meses eu tive que calcular cada movimento que ia fazer para não causar nenhum dano ao processo de cicatrização pós-cirúrgico. E depois eu passei uma boa temporada sem poder ir à muitos lugares, pra não correr o risco de me contaminar, afinal a imunidade fica baixíssima durante a quimioterapia. Aglomerados de pessoas, nem pensar. E o humor também não é dos melhores quando se toma tanta medicação e quando a gente não tá legal com a nossa própria imagem corporal.
Mas então, repentinamente, eu me vi em outro momento, em outra condição. Em meio a uma bateria de escola de samba, imersa naquela vibração tão contagiante, dançando sob um céu estrelado, cercada de gente apaixonada, e então subitamente eu me emocionei. Eu senti o que é presença, eu me senti viva. Eu constatei que as coisas mudam, passam, se transformam, e a vida sempre surpreende. E hoje em dia eu não só reproduzo esse discurso, essa constatação é existencial pois, assim como fui surpreendida quando descobri que tinha um câncer, eu nunca havia me imaginado prestigiando aquela beleza. Eu novamente fui surpreendida, e dessa vez foi tão bonito. 
Foi uma grata surpresa, viu vida. Eu realmente sou muito abençoada, e é isso que anima meu ser. Eu me celebro.