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Brotar.


Hoje, enquanto no hospital eu esperava pela chegada do médico para uma consulta de rotina, fiquei olhando para o meu prontuário sobre a mesa, sozinha e em silêncio, e pensei: nossa, eu já vivi um bocado de coisas nessa minha vida de paciente oncológica. A pasta é das grossas, dentre as que vejo circular pelos corredores. Me entristeci.

Mas eu vejo as pessoas também por alí circulando, e é sempre tão comovente voltar para esse contexto por que, embora meu caso não seja dos mais comuns, eu não sou das que mais aparentam necessitar de cuidados. É tanta gente com comprometimentos maiores que o meu, de todos os tipos. E então me sinto estável, e isso me traz alguma paz, ainda que saiba o quanto nunca é tranquilo ter tido câncer.
Você pode não conviver mais com a doença, os exames podem indicar cura ou ao menos controle, você pode ter retomado sua rotina quase que sem grandes adaptações, mas permanece uma insegurança, às vezes discreta, em alguns momentos mais intensa. Pensar em recidiva, ver as transformações que nunca cessam de acontecer no seu corpo, temer o que te espera em decorrência disso tudo.
Eu relatei meus desconfortos (físicos e psíquicos) e saí da consulta bem, tudo indica que estamos ok. Mas lá fora, de mais dadas com a minha mãe, eu chorei. Chorei bastante água, duas mini cachoeiras, um choro que não era de raiva nem indignação. É um choro resignado de quem lamenta que as coisas nem sempre saem como a gente idealiza, e que por isso sente medo. Medo do imprevisível. Eu sei o que é chorar medo.
Tava batendo sol nos meus pés e eu percebi que tava gostoso ficar alí sentada com os pés quentinhos. Quando eu cansei de chorar eu respirei fundo e ecoou aqui dentro: entrego, confio, aceito e agradeço. Também sei o que é, depois de feito o que era preciso e possível, não restar mais nada a fazer além de ter esperança. No fundo eu gosto de alguns dos estados que o câncer me fez experimentar, como esses.
Acho que foi quando eu me dei conta de que, embora extenso, aquele prontuário não representa nem nada do tantão de coisas que eu já vivi nesses 35 anos e que, apesar de todas elas, sigo viva, que o sorriso brotou novamente. Da terra úmida e quente.