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29/01/2020

Adiante.


Eu me dedico diariamente a fazer acontecer a esperança por aqui, por que a vida já é desafiadora pra qualquer um mas quem teve câncer ainda lida com uma incompreensão que teima em assombrar.

Eu costumo sorrir bastante, no geral sou naturalmente otimista, positiva, pró-ativa, mas isso me custa uma certa energia, confesso, energia que nem sempre tem disponível suficientemente. Tem dias que sou só essa aí da foto, me pego olhando por minutos no fundo dos meus olhos e pras marcas que me constituem, vendo vazio, não me encontrando, não me reconhecendo. Não tem revolta, é pesar mesmo, lamentação.
Mas eu acho importante prestigiar essa dor, sabe? Me conhecer melhor também nesse lugar de fragilidade, por isso quis tirar uma foto de mim mesma num momento de tristeza, pra às vezes olhar na tentativa de entender melhor as oscilações. E saber acolher essa mulher ferida quando ela pedir ajuda. Vem um choro resignado e as lágrimas escoam como que limpando o caminho por onde ela vaga a procura de acalento.
Nos dias que a dor for maior, que você se perceber a sua versão mais vulnerável, a que requer cuidados, tente não ser tão cruel consigo, tente amparar, ter a compaixão de se olhar nos olhos e mergulhar então nesse vazio profundo, de mãos dadas com todas as outras que te constituem mas que, naquele momento, não protagonizam. É tudo você, e não que você não esteja sendo forte o bastante, só não deu pra suportar o peso do mistério, mas vai passar. Tudo passa, e isso é bom. E essa que hoje se olha com certa auto-piedade será a que amanhã vai se encarar pra dizer "eu sou pura potência, sou linda, sou foda, sou autêntica"... Pois você é unica e é muitas, e é justamente isso que te leva adiante. Quando você pega você mesma pelo braço e diz vem.