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01/04/2020

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Algumas pessoas têm me perguntado o que ando fazendo, se estou bem, afinal faz um tempo que não escrevo, não posto, nem nos stories. Algumas delas nem sequer conheço. Aí pensando percebi que só não quero. Não agora. Não ainda. Já parecia ser hora desse recolhimento, por que somos fases, mas quando a urgência se impôs tudo mudou de um dia pro outro e não deu mais para adiar, dissimular, fugir, tive que encarar a necessidade de uma revisão, junto da reclusão, tive que recuar. Como quando a gente recebe um diagnóstico grave, como quando eu soube que tinha câncer, e a minha vida e as prioridades se reconfiguraram instantaneamente. Soubemos de um vírus que desencadeou uma epidemia, que se tornou uma pandemia, que é uma ameaça invisível mas fatal. Não deu mais pra seguir naquela toada, e já era tempo.
Eu pressentia uma mudança significativa prestes a acontecer mas achava que era só aqui dentro, só comigo, mas é global. Por que tudo é, afinal. E eu ainda não sei bem o que falar sobre isso, nem o que pensar sobre isso, nem o que será de mim, ou de nós, nada está claro, tudo está em processo, estamos em crise. Uma crise sistêmica e complexa. O tempo vai possibilitar algum entendimento, possivelmente, por enquanto só o que identifico do que sinto é que nada, definitivamente, será como era antes.

Pra uns mais, pra outros menos, mas a mudança é irreversível, e a transmutação será imprescindível, pra que a gente sobreviva, física e subjetivamente. Já ensaiei muito para escrever esse texto, só hoje já comecei e parei algumas vezes, estou aqui fazendo isso sem vontade por que está me exigindo muito do aspecto emocional, eu só queria estar pausada mesmo. Mas minha mente custa a desacelerar e ela anda me consumindo, então quem sabe isso pode ser útil, inclusive para mais alguém.
Estou angustiada por que ficam dizendo que a gente tem que usar esse tempo para nos aprimorarmos por que né, a vida vai voltar ao normal e você tem que sair na frente, claro. De fato a gente vai ter que ralar muito quando a coisa normalizar, mas o chamado não é justamente o inverso? Tudo entrou em colapso, pessoal, isso não indica que do jeito que tava estava insustentável?!
Hoje uma amiga pediu minhas redes sociais para que a amiga acessasse meus conteúdo, ela quer ajudá-la pois foi diagnosticada com câncer de mama e o estágio é grave. Percebe, a gente segue perdendo muita coisa todos os dias, e ganhando também. Com corona ou sem corona. E isso vai ser sempre assim. Agora pensa, o que você estima tanto a ponto de considerar que não viveria sem?
Tem coisas que dá para viver sem. E faz até bem se libertar delas, bem para si e para o todo. O que você ganharia ao se libertar de algumas coisas que não são imprescindíveis?
Essas proposições são reflexo dessa mente inquieta que anda bem confusa. Por isso eu afirmei, nada por aqui parece que será como antes.
Outro amigo disse hoje que eu podia pedir uma música que ele tocaria no piano. Eu logo pensei em Ain't Got No/ I Got Life, da Nina Simone, que amo. Achei a trilha sonora perfeita. E de novo ouvi e, de novo, chorei, por que é muito comovente. “I got my hair, got my head. Got my brains, got my ears. Got my eyes, got my nose, got my mouth... I got myself!”
Traduzindo bem simplificadamente, cita um monte de coisa que ela não tem, como casa, sapatos, dinheiro, classe, saias, casacos, perfume, amor, mas ao final ela afirma que só o que ela tem é ela mesma! Sua vida, seus órgãos, sua força... sua potência! Ela está viva! E isso é o que mais importa. E não é?! Me senti encorajada. Tudo será diferente, mas eu farei o que puder para que seja bom.
Só o que a gente tem de fato é nossa pulsão de vida, todo o resto efêmero, se esvai mais cedo ou mais tarde. Não sei o que será de nós, mas confio na nossa imensa força de regeneração. Escolho seguir acreditando.